quarta-feira, 4 de novembro de 2026
Brasil

Unicef diz que responsabilização de adolescentes não exige tratamento como adulto

Representante da organização defende o sistema socioeducativo em vez da prisão comum; levantamento aponta 18 anos como regra geral para julgamento de adultos no G20.
Unicef diz que responsabilização de adolescentes não exige tratamento como adulto
Foto distribuída pela Agência Brasil Direitos Humanos

Responsabilizar adolescentes por atos infracionais não significa submetê-los ao mesmo sistema destinado a adultos, segundo o representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, Joaquin Gonzalez-Aleman. A organização divulgou levantamento que aponta 18 anos como a idade mínima geral para que uma pessoa seja julgada como adulta nos 19 países do G20.

Para o Unicef, a responsabilização pode ocorrer antes dessa idade, desde que o adolescente responda à Justiça em um sistema específico. A maioridade penal, por outro lado, corresponde ao momento em que a pessoa pode ser julgada como adulta e condenada a cumprir pena no sistema prisional comum.

Diferença entre os sistemas

“É possível responsabilizar um adolescente sem tratá-lo como adulto”, afirmou Gonzalez-Aleman. Segundo ele, misturar adolescentes e adultos em uma mesma estrutura prisional pode produzir efeito contrário ao esperado, aproximando os jovens de redes criminosas e rompendo vínculos com a escola, a família e a comunidade.

O representante do Unicef também defendeu o encaminhamento para o sistema socioeducativo. “Já estamos responsabilizando as crianças a partir dos 12 anos quando elas cometem infração. A questão é que não é preciso levá-las para uma prisão”, declarou. Ele acrescentou que, de acordo com evidências citadas pela organização, a reincidência é menor no sistema socioeducativo do que nas prisões para adultos.

Idades variam no G20

Embora a maioridade penal geral esteja em 18 anos nos países do G20, as idades mínimas para responsabilização juvenil são diferentes. Arábia Saudita e Índia adotam 7 anos. Reino Unido, Estados Unidos e Austrália trabalham com faixas entre 10 e 12 anos.

Brasil, África do Sul, Canadá, Indonésia, México e Turquia estabelecem o limite em 12 anos. Na França, a idade mínima é de 13 anos. Alemanha, Argentina, Coreia do Sul, Itália, Japão e Rússia adotam 14 anos, enquanto a China fixa a idade em 16 anos.

O G20 reúne os 19 países apontados como as maiores economias do mundo e dois blocos regionais: a União Europeia e a União Africana. Conforme o representante do Unicef, o grupo concentra 60% da população mundial.

Regras na América Latina

Entre os 20 países latino-americanos analisados, a responsabilização começa aos 12 anos no Brasil, na Costa Rica, em El Salvador, no Equador, em Honduras, no México e no Panamá. Guatemala, Haiti, República Dominicana e Uruguai adotam 13 anos.

Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Paraguai, Peru e Venezuela estabelecem o limite em 14 anos. Cuba aparece com a maior idade mínima da lista, de 16 anos.

O levantamento informa que nenhum país do G20 prevê, como regra geral, o julgamento de menores de 18 anos como adultos. Ainda assim, há exceções em Estados Unidos, Arábia Saudita, Índia, Canadá, Reino Unido, Japão e Coreia do Sul. Na América Latina, apenas Cuba apresenta exceções à regra geral de 18 anos para a maioridade penal. O Unicef não detalhou as exceções. No caso dos Estados Unidos, a divulgação cita situações em que violência, uso de arma ou antecedentes criminais podem levar o caso da Justiça juvenil para um juizado criminal.

Debate no Congresso

O levantamento foi divulgado enquanto o Congresso discutia a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. O texto foi aprovado no Senado sem emendas que buscavam equiparar adolescentes a adultos.

Durante a votação, senadores analisaram propostas para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos ou para 14 anos. O relator da PEC, senador Rogério Carvalho (PT-SE), não incluiu essas mudanças no relatório final e recomendou que fossem apresentadas em propostas autônomas, com tramitação e votação separadas.

Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.

Foto distribuída pela Agência Brasil Direitos Humanos