sábado, 7 de novembro de 2026
Cultura

Estudo sobre áudio reúne relatos de silenciamento e desigualdade no audiovisual brasileiro

Dossiê A Cor do Som ouviu 24 pessoas e descreve diferenças de remuneração, restrições ao reconhecimento profissional e padrões técnicos e linguísticos associados à produção audiovisual.
Estudo sobre áudio reúne relatos de silenciamento e desigualdade no audiovisual brasileiro
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O silenciamento é apresentado como um dos mecanismos recorrentes do racismo no audiovisual brasileiro pelo dossiê A Cor do Som. O estudo reúne relatos sobre critérios usados na produção de áudio, formas de falar e relações de trabalho em produtoras, estúdios e agências de publicidade.

Elaborado pela Semiótica Antirracista e pelo Estúdio Nina, o levantamento ouviu 24 pessoas: 18 profissionais negros das áreas técnica e criativa do audiovisual, quatro acadêmicos e duas personalidades envolvidas no debate racial. Os nomes das duas últimas não foram divulgados. O trabalho recebeu apoio da empresa Audiolivros e foi lançado no início do Novembro Negro, período dedicado à Consciência Negra.

O que permanece no som

Na avaliação dos pesquisadores, a produção de áudio no Brasil segue um paradigma de origem europeia, colonial e elitista. O dossiê descreve a busca por retirar dos produtos finais ruídos e interferências associados à rua, à praça e ao povo como uma forma de “higienizar” o som.

Segundo o estudo, operadores recebem orientações para seguir regras que conduzem a um áudio considerado o mais higienizado possível. Para os autores, esse procedimento pode descartar ruídos periféricos e marcas culturais afro-brasileiras. A pesquisa defende que seja questionada a ideia de neutralidade técnica nas produções sonoras.

O levantamento também ressalta que não existe uma “voz de preto” ou uma “voz de branco”, porque os timbres humanos são diversos. A crítica dos pesquisadores se volta, portanto, à adoção de padrões tratados como adequados e à possibilidade de que essas escolhas desvalorizem determinadas referências culturais.

Hierarquias na linguagem

Outra frente analisada é a linguagem dos produtos audiovisuais. De acordo com os autores, a prevalência da norma-padrão cria uma hierarquia entre diferentes modos de falar e reduz a pluralidade àquilo que é considerado erro.

O dossiê menciona o conceito de “Pretuguês”, associado à intelectual e ativista Lélia Gonzalez (1935-1994). A expressão é usada para tratar de formas de falar marcadas por elementos fonéticos e sintáticos de línguas africanas, como a troca do “L” pelo “R” em palavras como “probrema” ou a substituição do “LH” por “I”, como em “faia”.

Relatos sobre o mercado de trabalho

Nas entrevistas com profissionais negros, os pesquisadores registraram queixas sobre o funcionamento do mercado audiovisual. Entre elas estão o recebimento de salários menores que os de pessoas brancas em funções equivalentes, contratações associadas à aceitação de remunerações mais baixas e dificuldade para cobrar valores compatíveis com a própria qualificação.

Também foram relatadas a necessidade de trabalhar mais para demonstrar competência e a falta de reconhecimento mesmo quando o profissional participa do desenvolvimento de projetos. Um entrevistado da área criativa afirmou que acumulava tarefas como produção de palco, ligações telefônicas, edição e captação. Depois de reivindicar remuneração compatível com o trabalho, disse ter sido demitido por e-mail e substituído por uma influenciadora branca.

Outro participante declarou que era a pessoa que mais trabalhava e havia desenvolvido o projeto, mas era a menos ouvida. Segundo o relato, precisava insistir para que os demais reconhecessem sua capacidade e conhecimento.

Funções técnicas e decisões

O estudo afirma ainda que profissionais negros ocupam mais frequentemente funções consideradas braçais, enquanto postos de criação, decisão e liderança permanecem majoritariamente associados a pessoas brancas. Um entrevistado da área de cinema relatou ter passado por atividades de som, montagem e assistência de produção e questionou por que não poderia atuar como produtor.

Os pesquisadores também descrevem situações em que a identidade racial passa a definir a forma como o profissional é reconhecido. Um dos participantes disse que ser chamado de “negro” ao longo da carreira pode funcionar como uma forma de aprisionamento, ao transformá-lo em “o negro” de determinado ambiente profissional.

O dossiê relaciona esse enquadramento à percepção de que produções realizadas por pessoas negras seriam destinadas apenas a um público específico. Para os autores, essa visão trata obras brancas como universais e contribui para classificar produções negras como “de nicho”. Um dos entrevistados resumiu a experiência dizendo que tudo o que pessoas pretas falam é considerado escutado apenas por pessoas pretas.

As conclusões apresentadas são baseadas nas percepções dos entrevistados. O estudo não apresenta dados quantitativos sobre a frequência das situações descritas no conjunto do setor audiovisual.

Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil