O Park Way ocupa uma posição singular na paisagem de Brasília. Localizado na região sul do Distrito Federal, o setor combina grandes áreas residenciais, vegetação de cerrado, nascentes, núcleos rurais e acesso às principais vias que ligam o Plano Piloto a outras regiões da capital. A tranquilidade associada ao lugar não surgiu por acaso: ela está relacionada ao próprio desenho urbano concebido para a área desde os primeiros anos de construção de Brasília.
Incluído no plano urbanístico da nova capital entre 1957 e 1958, o Park Way foi criado para manter baixa densidade de ocupação no entorno do Plano Piloto. A proposta previa lotes amplos, uso predominantemente residencial e a preservação de espaços livres. A ideia era formar uma espécie de cinturão verde, com ocupação menos concentrada e integração entre moradia, áreas rurais e paisagem natural.
Um setor planejado para ter baixa densidade
A origem do Park Way está ligada ao projeto das Mansões Suburbanas Park Way, elaborado no contexto do planejamento urbano de Brasília. Documentos técnicos do Distrito Federal atribuem a concepção a Lúcio Costa e registram que o projeto foi desenvolvido pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, a Novacap.
O registro cartorial ocorreu em 1961, ano considerado um marco para a formação do setor. Na configuração inicial, os lotes tinham aproximadamente 20 mil metros quadrados e eram destinados principalmente ao uso residencial. A ocupação previa até três residências por lote: uma casa principal, uma residência para hóspedes e outra para o caseiro.
Esse modelo tinha uma função urbanística. Ao contrário das superquadras do Plano Piloto, organizadas em blocos residenciais e áreas coletivas, o Park Way foi estruturado para abrigar casas isoladas em terrenos extensos. A baixa densidade ajudaria a preservar a paisagem e a reduzir a pressão de ocupação sobre as áreas próximas ao núcleo central da cidade.
As áreas livres também foram consideradas parte do desenho do setor. A intenção era permitir a implantação futura de equipamentos e atividades complementares sem transformar o local em uma área de alta concentração urbana. Com isso, o Park Way passou a representar uma forma distinta de morar em Brasília, baseada em lotes grandes, vias-parque e maior contato com a vegetação.
Da área ligada ao Núcleo Bandeirante à região administrativa
Durante boa parte de sua história, o Park Way esteve administrativamente ligado ao Núcleo Bandeirante. A separação ocorreu em 2003, quando a Lei nº 3.255, de 29 de dezembro daquele ano, criou a Região Administrativa do Park Way, identificada como RA XXIV.
A mudança acompanhou a expansão da ocupação residencial e a necessidade de uma estrutura administrativa própria. Antes disso, o setor era tratado como parte do território do Núcleo Bandeirante, área que teve papel importante na formação da cidade e na instalação dos primeiros trabalhadores envolvidos na construção da nova capital.
Mesmo após a criação da região administrativa, o Park Way manteve características que o diferenciam de áreas mais adensadas do Distrito Federal. A ocupação segue marcada por casas, condomínios horizontais e grandes espaços abertos. A ausência de um centro comercial concentrado também contribui para a sensação de silêncio e para a dependência de áreas vizinhas em atividades de comércio e serviços.
O fracionamento dos lotes mudou a paisagem
O perfil atual do Park Way também é resultado de mudanças nas regras de ocupação. Em 1993, foi autorizado o fracionamento dos lotes em até oito frações, com área mínima de 2.500 metros quadrados. A possibilidade foi regulamentada por normas posteriores, incluindo o Decreto nº 18.910, de 1997.
A alteração permitiu que terrenos originalmente muito extensos fossem divididos em unidades menores. Esse processo favoreceu a formação de condomínios e ampliou o número de residências, embora o padrão de ocupação horizontal tenha sido mantido. Em vez de edifícios altos ou conjuntos densos, a região passou a reunir casas e condomínios distribuídos ao longo das quadras.
O fracionamento também ajudou a tornar o Park Way mais acessível a um número maior de moradores em comparação com o modelo original de lotes de 20 mil metros quadrados. Ao mesmo tempo, a expansão da ocupação trouxe desafios relacionados à infraestrutura, ao trânsito, à preservação das áreas verdes e à compatibilidade entre novas demandas urbanas e a concepção ambiental do setor.
Áreas verdes e recursos naturais
A presença de vegetação nativa é uma das marcas mais reconhecidas do Park Way. A região abriga áreas com características do cerrado, córregos, nascentes e espaços de preservação ambiental. Entre as referências citadas em documentos do Distrito Federal está a Fazenda Água Limpa, da Universidade de Brasília, área utilizada para pesquisa, ensino e conservação.
A Fazenda Água Limpa está inserida em uma paisagem de importância ambiental para o Distrito Federal. Áreas desse tipo ajudam a manter a cobertura vegetal, proteger recursos hídricos e conservar ambientes associados ao cerrado. No Park Way, essa relação entre urbanização e natureza aparece tanto nas áreas protegidas quanto nos terrenos residenciais arborizados.
A existência de áreas verdes não significa que todo o território esteja preservado ou livre de pressões urbanas. A expansão de condomínios, a abertura de vias, a necessidade de infraestrutura e o aumento da circulação de veículos exigem planejamento permanente. Por isso, a discussão sobre o futuro do Park Way costuma envolver a proteção ambiental e a manutenção do modelo de baixa densidade.
O próprio planejamento urbano do setor foi concebido com a preocupação de preservar áreas livres no entorno do Plano Piloto. Essa característica faz do Park Way uma área importante para a leitura da paisagem de Brasília, cidade reconhecida pelo planejamento modernista e pelo conjunto urbano tombado.
Vargem Bonita mantém a dimensão rural
Embora seja associado principalmente a casas e condomínios, o Park Way também possui uma dimensão rural. A região abriga o Núcleo Hortícola Suburbano de Vargem Bonita, criado em 1959 para contribuir com o abastecimento da população da nova capital.
Vargem Bonita integra o chamado cinturão verde de Brasília, formado por áreas rurais planejadas para produzir alimentos próximos à cidade. A implantação do núcleo contou com a participação de famílias de origem japonesa, convidadas para trabalhar na agricultura do Distrito Federal durante o período de construção da capital.
A produção agrícola de Vargem Bonita abastece diferentes canais de comercialização, como a Central de Abastecimento do Distrito Federal, feiras, mercados e estabelecimentos varejistas. O núcleo também preserva referências culturais da comunidade nipo-brasileira, que participa da formação histórica e social da área.
A presença de Vargem Bonita amplia a compreensão sobre o Park Way. A região não é apenas um bairro residencial de baixa densidade, mas um território que reúne funções urbanas, ambientais, agrícolas e culturais. Essa combinação é parte do desenho original do entorno de Brasília e ajuda a explicar a diversidade de paisagens encontrada no local.
Patrimônio ligado à construção de Brasília
O Park Way também reúne lugares associados à história da capital. Entre os principais exemplos estão o Catetinho e a Casa Niemeyer, citados em documentos oficiais como referências culturais e patrimoniais da região.
O Catetinho foi a primeira residência oficial do presidente Juscelino Kubitschek em Brasília e serviu como ponto de apoio durante a construção da cidade. A edificação preserva parte da memória dos primeiros anos da transferência da capital para o interior do país e está relacionada ao período de implantação das obras.
A Casa Niemeyer integra o conjunto de referências arquitetônicas vinculadas à produção de Oscar Niemeyer em Brasília. Assim como outras construções da capital, o imóvel ajuda a preservar a memória do projeto modernista que orientou a criação da cidade.
Esses espaços convivem com a paisagem residencial e natural do Park Way. A presença de monumentos, áreas rurais e reservas ambientais faz com que a região funcione também como um recorte da história de Brasília, desde a construção da cidade até a consolidação de seus bairros e regiões administrativas.
Uma identidade marcada pelo silêncio e pela baixa ocupação
Ao longo das décadas, o Park Way se consolidou como uma das áreas mais conhecidas do Distrito Federal para quem busca morar em casas amplas, com mais espaço entre as construções e presença de árvores. A proximidade relativa com o Plano Piloto e com importantes eixos viários tornou possível combinar uma rotina residencial mais reservada com acesso a outras partes de Brasília.
Essa identidade, porém, é resultado de escolhas urbanísticas e não apenas de características naturais. O setor foi planejado para ser menos adensado, preservou grandes lotes e manteve uma ocupação predominantemente residencial. A paisagem atual é, portanto, consequência da interação entre o projeto original, as mudanças nas regras de parcelamento e a expansão da cidade.
O principal desafio do Park Way é equilibrar crescimento e preservação. A região precisa responder às demandas por mobilidade, serviços públicos, segurança, manutenção urbana e infraestrutura sem perder os elementos que definem sua história: as áreas verdes, a baixa densidade, a presença rural e a relação com o patrimônio de Brasília.
Park Way preserva uma ideia original de Brasília
A história do Park Way mostra que Brasília foi planejada para além do Plano Piloto. Desde o início, o projeto da capital previa áreas de transição, núcleos rurais, estradas-parque e setores residenciais com diferentes padrões de ocupação.
O Park Way nasceu dentro dessa lógica. Sua função era reduzir a concentração urbana, criar um cinturão verde e oferecer uma forma de moradia integrada à paisagem. Mais de seis décadas depois do registro do projeto, a região ainda preserva parte dessa proposta em suas áreas arborizadas, nos lotes horizontais, em Vargem Bonita e nas referências históricas espalhadas pelo território.
Por isso, o Park Way ocupa um lugar particular na geografia de Brasília. Ao mesmo tempo em que está conectado ao centro político e administrativo do Distrito Federal, mantém uma paisagem de ritmo mais lento, com grandes áreas abertas, vegetação de cerrado e marcas do período de construção da capital.
Fontes: Estudo Urbano Ambiental do Park Way, da Codeplan; documento institucional da Administração Regional do Park Way; e informações da Câmara Legislativa do Distrito Federal.