segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Cidades

Candangolândia preserva parte da história da construção de Brasília

Candangolândia surgiu como acampamento da Novacap em 1956 e preserva parte da memória dos trabalhadores que construíram Brasília. A região abrigou a primeira escola, uma das primeiras igrejas, serviços públicos e estruturas usadas durante a construção da capital.

A história da Candangolândia se confunde com os primeiros capítulos da construção de Brasília. Criada em 1956 para abrigar trabalhadores mobilizados pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), a região surgiu antes mesmo da inauguração da nova capital, em 21 de abril de 1960.

O local foi um dos primeiros acampamentos organizados para receber os operários, técnicos e funcionários envolvidos na implantação do Distrito Federal. Ao longo do tempo, a área deixou de ser apenas um núcleo provisório de trabalhadores e se consolidou como uma comunidade permanente, marcada pela presença de pioneiros e pela preservação de referências dos primeiros anos de Brasília.

O surgimento do primeiro acampamento

A instalação do acampamento da Novacap começou em 3 de novembro de 1956. A data é considerada um marco do início efetivo da construção de Brasília e é celebrada como o aniversário da Candangolândia.

Naquele período, o Planalto Central recebia milhares de pessoas vindas de diferentes partes do país. Eram trabalhadores atraídos pela promessa de emprego nas obras da nova capital, planejada para ser erguida no centro do território brasileiro. Muitos chegavam sem vínculos anteriores com a região e precisavam de alojamento, alimentação, atendimento médico e serviços básicos.

O acampamento foi estruturado para atender a essa demanda. No local funcionavam a sede da Novacap, postos de saúde, hospital, posto policial, restaurantes, escola e moradias destinadas a trabalhadores, técnicos e servidores ligados à obra.

As primeiras instalações eram simples. Barracos de lona e construções de madeira compunham parte da paisagem. Por causa desse aspecto, o local também ficou conhecido, em determinados períodos, por apelidos como “Lonalândia” e “Sacolândia”. Os nomes faziam referência ao material usado nas moradias improvisadas e à aparência do acampamento.

Uma vila formada por trabalhadores de várias regiões

Os operários que participaram da construção de Brasília ficaram conhecidos como candangos. O termo passou a identificar os trabalhadores que chegaram ao Distrito Federal para atuar na abertura de estradas, na preparação do terreno, na construção de edifícios e na implantação da infraestrutura da capital.

A população do acampamento era formada por pessoas de diferentes estados, com forte presença de migrantes do Nordeste, de Minas Gerais, de Goiás e de outras áreas do país. Essa diversidade ajudou a moldar a vida social da comunidade e contribuiu para a formação da identidade cultural de Brasília.

O nome Candangolândia surgiu como uma referência direta a esses pioneiros. Antes disso, o local foi chamado de Vila Operária e, posteriormente, de Vila dos Candangos. A denominação atual consolidou a relação entre a região e os trabalhadores que ajudaram a erguer a nova capital.

A vida no acampamento era marcada pela proximidade entre moradia, trabalho e serviços. A rotina começava cedo, acompanhando o ritmo intenso das obras. Ao mesmo tempo, a comunidade desenvolvia suas próprias formas de convivência, com comércio, atividades religiosas, escola e espaços de encontro.

Serviços pioneiros na construção de Brasília

A Candangolândia reuniu estruturas consideradas pioneiras no processo de implantação de Brasília. Entre elas estava a Escola Júlia Kubitschek, construída em 1956 para atender os filhos dos trabalhadores. A instituição é lembrada como a primeira escola criada no contexto da nova capital.

O prédio original tinha características simples e foi associado à arquitetura dos primeiros edifícios construídos durante a fase inicial da obra. A escola chegou a atender centenas de alunos e se tornou um dos principais pontos de referência da comunidade.

A região também abrigou serviços de saúde, segurança e alimentação destinados aos trabalhadores. Entre os equipamentos instalados no acampamento estava um restaurante ligado ao Serviço de Alimentação da Previdência Social, conhecido pela sigla SAPS. O estabelecimento fornecia refeições aos operários e é apontado como um dos primeiros restaurantes comunitários do país.

Outra estrutura importante era o caixa-forte utilizado para guardar o dinheiro destinado ao pagamento dos trabalhadores. Como a construção de Brasília ocorreu em uma área ainda distante dos grandes centros urbanos, o transporte de valores e a organização da folha de pagamento eram tarefas essenciais para manter o funcionamento dos canteiros de obras.

A presença desses serviços mostra que o acampamento não era apenas um conjunto de alojamentos. Ele funcionava como uma base administrativa e urbana para a construção da capital, concentrando atividades necessárias à permanência de milhares de pessoas.

Religiosidade e formação comunitária

A religiosidade também ocupou espaço importante na formação da Candangolândia. A comunidade recebeu uma igreja ainda nos primeiros anos do acampamento, em um período no qual os espaços religiosos serviam tanto para celebrações quanto para encontros sociais.

A Paróquia São João Bosco se tornou uma das referências da região. A igreja está associada à memória da consolidação da comunidade e à atuação de religiosos que acompanharam a formação da cidade. Ao lado da escola, dos postos de atendimento e das áreas de comércio, o templo ajudou a estruturar a vida cotidiana dos moradores.

Em comunidades formadas rapidamente durante a construção de Brasília, instituições religiosas e educacionais desempenhavam funções que iam além de seus objetivos originais. Elas ajudavam a organizar a convivência, ofereciam apoio às famílias e reforçavam os vínculos entre os moradores.

Da ocupação provisória à permanência

Os acampamentos construídos para atender às obras de Brasília foram inicialmente concebidos como estruturas temporárias. A expectativa era de que muitos trabalhadores deixassem a região depois da conclusão da capital. Na prática, parte dos moradores permaneceu e transformou os antigos núcleos de apoio em comunidades permanentes.

A Candangolândia passou por esse processo. O que começou como um acampamento ligado à Novacap ganhou casas, comércio, equipamentos públicos e relações comunitárias próprias. A permanência dos moradores também expressou a dificuldade de separar a história da capital da trajetória das pessoas que participaram de sua construção.

Durante as primeiras décadas, a área foi vinculada administrativamente ao Núcleo Bandeirante. A ocupação, inicialmente tratada como provisória, foi reconhecida como núcleo urbano em 1989. Em 1994, a Lei nº 658 criou oficialmente a Região Administrativa da Candangolândia, identificada como RA XIX do Distrito Federal.

A transformação administrativa consolidou uma realidade que já existia no cotidiano: a antiga vila de trabalhadores havia se tornado uma cidade com identidade própria, população estável e memória coletiva.

O que permanece da memória dos pioneiros

A paisagem atual da Candangolândia reúne áreas residenciais, comércio, equipamentos públicos e espaços verdes. Mesmo com as mudanças urbanas, a região ainda preserva elementos associados aos primeiros anos da construção de Brasília, como casas antigas, referências religiosas e relatos de moradores pioneiros.

Essa memória é transmitida por documentos, fotografias, depoimentos e iniciativas comunitárias. A lembrança dos primeiros moradores ajuda a registrar uma dimensão da história de Brasília que não aparece apenas nos edifícios monumentais do Plano Piloto.

A construção da capital costuma ser associada ao planejamento de Lúcio Costa, à arquitetura de Oscar Niemeyer e às decisões do governo de Juscelino Kubitschek. Esses elementos são fundamentais, mas a história também foi feita por trabalhadores responsáveis por tarefas concretas, como abrir caminhos, transportar materiais, levantar estruturas e manter os serviços necessários ao funcionamento dos canteiros.

Nesse sentido, a Candangolândia funciona como um espaço de memória dos trabalhadores. A região preserva a lembrança de uma Brasília anterior à inauguração oficial, quando a capital ainda era um projeto em execução e os acampamentos eram os principais núcleos de vida no território.

Uma parte da história de Brasília dentro do Distrito Federal

A importância histórica da Candangolândia está relacionada à sua origem e à continuidade de sua comunidade. A região não foi criada depois da capital pronta, mas durante o período em que Brasília ainda era construída. Por isso, sua trajetória ajuda a compreender como a cidade surgiu e como os primeiros moradores participaram desse processo.

A memória local também amplia a compreensão sobre o Distrito Federal. Brasília não se resume ao Plano Piloto nem aos monumentos reconhecidos internacionalmente. A formação da capital envolveu acampamentos, vilas operárias e núcleos urbanos que acolheram os trabalhadores e suas famílias.

Ao preservar referências dessa fase, a Candangolândia mantém viva a participação dos candangos na construção da nova capital. Sua história é, ao mesmo tempo, a história de uma comunidade e parte da formação de Brasília.

Mais de seis décadas depois do início do acampamento, a região continua associada aos pioneiros que chegaram ao Planalto Central em 1956. O nome, os espaços de convivência e as lembranças guardadas pelos moradores reforçam essa ligação com os primeiros anos da capital brasileira.

Fontes consultadas: Câmara Legislativa do Distrito Federal, Agência Brasília e Arquivo Público do Distrito Federal.