A história do Cruzeiro em Brasília se confunde com os primeiros anos de construção da capital federal. Localizada em uma área central do Distrito Federal, a região foi planejada para receber parte dos servidores públicos transferidos do Rio de Janeiro, então capital do país, e se transformou em um dos núcleos residenciais mais tradicionais de Brasília.
O Cruzeiro reúne diferentes camadas da história brasiliense. A região está próxima à Praça do Cruzeiro, ponto associado à escolha do local da nova capital, à demarcação inicial do território e à celebração da primeira missa de Brasília. Também preserva a memória dos primeiros moradores, a arquitetura residencial concebida no período da construção da cidade e uma forte tradição cultural, marcada por agremiações como a Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro, a Aruc.
Uma área ligada à escolha da nova capital
Antes de receber casas e edifícios, a área onde hoje está o Cruzeiro fazia parte da Fazenda Bananal. O território foi desapropriado no contexto das medidas adotadas para a construção do Distrito Federal. A região também guarda registros anteriores à obra de Brasília: em 1894, a Missão Cruls instalou um acampamento nas proximidades do atual Córrego do Acampamento, de acordo com levantamentos históricos da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios.
A relação mais conhecida do Cruzeiro com a origem de Brasília, porém, está na praça que dá nome à região. Em fevereiro de 1955, o marechal José Pessoa, presidente da Comissão de Localização da Nova Capital Federal, visitou o Planalto Central com sua comitiva. O grupo avaliava áreas apresentadas para a escolha do local onde seria construída a nova sede do governo brasileiro.
Entre os pontos analisados estava o chamado Sítio Castanho. A área correspondia a uma elevação com ampla visão do território que receberia a nova cidade. A escolha da região para a construção da capital ocorreu em 1955, e o ponto elevado passou a ocupar lugar importante nos registros da implantação de Brasília. (arquivopublico.df.gov.br)
A cruz que deu nome ao lugar
No mesmo período, uma cruz foi instalada no ponto mais alto da área escolhida. O vice-governador de Goiás, Bernardo Sayão, ficou responsável por plantar uma estrutura simples feita com galhos de madeira. A cruz serviu como marco simbólico e topográfico do local, que passou a ser identificado como “o Cruzeiro”.
Mais tarde, a cruz de madeira foi substituída por uma estrutura de aroeira, instalada sobre uma base de alvenaria. O espaço ficou conhecido como Praça do Cruzeiro e se tornou um dos pontos de referência da construção da capital. A altitude e a posição privilegiada também permitiam observar parte do grande canteiro de obras que se estendia ao redor.
Em 3 de maio de 1957, a área recebeu a primeira missa de Brasília. A celebração ocorreu durante o processo de construção da cidade e ajudou a consolidar a importância simbólica da praça. Anos depois, a proximidade com esse marco histórico seria um dos argumentos usados pelos moradores para defender o nome Cruzeiro para o bairro residencial criado nas proximidades. (arquivopublico.df.gov.br)
O nascimento do Setor de Residências Econômicas Sul
O núcleo residencial do atual Cruzeiro começou a ser formado no fim da década de 1950. O projeto urbanístico foi elaborado pela equipe de Lúcio Costa, responsável pelo Plano Piloto de Brasília. A área recebeu inicialmente o nome oficial de Setor de Residências Econômicas Sul, conhecido pela sigla SRES.
A proposta era construir moradias destinadas a trabalhadores que chegavam ao Distrito Federal para participar da instalação da nova capital. Entre os primeiros moradores estavam servidores públicos, militares, bombeiros e suas famílias, muitos deles transferidos do Rio de Janeiro. A presença desses pioneiros contribuiu para a formação de uma comunidade com hábitos e referências culturais próprias.
O SRES foi estruturado principalmente com casas, em uma configuração que mais tarde seria identificada como Cruzeiro Velho. O desenho urbano privilegiava conjuntos residenciais e vias de circulação integradas ao sistema planejado de Brasília. A ocupação ocorreu em um momento de intensa transformação, quando a cidade ainda era um grande canteiro de obras e muitos serviços estavam em processo de implantação.
De Gavião a Cruzeiro
O nome oficial do setor não se incorporou imediatamente ao uso cotidiano dos moradores. Como a sigla SRES era considerada pouco familiar, o local passou a receber denominações informais. Uma delas foi “Cemitério”, associada ao isolamento do bairro e à aparência uniforme das casas. Outra foi “Bairro do Gavião”, em referência à presença de aves de rapina observadas na região.
A comunidade não se identificava com o nome Gavião. Segundo registros históricos, um grupo de moradores procurou o jornal Correio Braziliense para manifestar a insatisfação com a denominação. A alternativa Cruzeiro ganhou força por duas razões: a proximidade com a praça onde havia sido celebrada a primeira missa de Brasília e a existência de uma linha de ônibus da Transportes Coletivos de Brasília, a TCB, associada aos nomes Cruzeiro e Gavião.
Assim, um nome relacionado a um dos principais marcos da construção da capital passou a designar também o setor residencial. A mudança expressava a tentativa dos moradores de construir uma identidade própria para a comunidade, em vez de permanecerem associados a uma sigla administrativa ou a um apelido considerado inadequado. (cl.df.gov.br)
A formação do Cruzeiro Novo
A expansão da região ocorreu com a construção de novos conjuntos residenciais. Na década de 1970, foi implantado o Setor de Habitações Coletivas Econômicas Sul, identificado pela sigla SHCES. O setor passou a ser conhecido como Cruzeiro Novo e se diferenciou do núcleo mais antigo pelo predomínio de edifícios residenciais.
Enquanto o Cruzeiro Velho é marcado principalmente por casas e sobrados, o Cruzeiro Novo foi organizado com blocos de apartamentos, em geral com quatro pavimentos. A mudança acompanhou o crescimento de Brasília e a necessidade de ampliar a oferta de moradias para servidores e trabalhadores que viviam na área central da capital.
A convivência entre casas e edifícios deu à região uma configuração urbana diversa. O Cruzeiro passou a reunir, em um espaço relativamente próximo, diferentes formas de ocupação residencial e gerações de moradores. Essa combinação ajudou a preservar características de bairro tradicional mesmo com a expansão urbana do Distrito Federal.
Da vinculação ao Plano Piloto à criação da região administrativa
Durante parte de sua história, o Cruzeiro esteve vinculado administrativamente à área que correspondia à Região Administrativa de Brasília. A autonomia administrativa veio com a Lei nº 49, de 25 de outubro de 1989, que criou a Região Administrativa do Cruzeiro, identificada como RA XI, por desmembramento da então RA I.
A configuração territorial da região mudou novamente no fim da década de 1980 e no início dos anos 2000. O projeto Brasília Revisitada, de 1988, concebeu o Setor de Habitações Coletivas Sudoeste, que chegou a integrar o Cruzeiro. Em 1989, o Sudoeste foi criado como parte da região. Posteriormente, em 6 de maio de 2003, a área do Sudoeste e da Octogonal foi desmembrada para formar a Região Administrativa XXII.
Essas alterações mostram que a divisão administrativa do Distrito Federal não permaneceu estática. O crescimento urbano, a criação de novos setores e a necessidade de organizar a gestão pública modificaram os limites originalmente associados ao Cruzeiro. (pdad.ipe.df.gov.br)
Memória, cultura e identidade comunitária
O Cruzeiro também se tornou conhecido pela vida cultural construída por seus moradores. A presença de famílias vindas do Rio de Janeiro contribuiu para a criação de tradições ligadas ao carnaval, à música e às manifestações comunitárias. A Aruc, fundada em 1961, tornou-se uma das principais instituições culturais da região e uma referência do carnaval de Brasília.
A associação ajudou a consolidar a imagem do Cruzeiro como um dos centros do samba e das escolas carnavalescas no Distrito Federal. Ao lado das atividades culturais, a região desenvolveu clubes, espaços religiosos, equipamentos esportivos e iniciativas voltadas à preservação da memória local.
Projetos como a Casa da Memória do Cruzeiro passaram a reunir fotografias, documentos e relatos sobre a formação do bairro. Esses acervos registram a trajetória de moradores pioneiros, as transformações da paisagem urbana e a rotina de uma comunidade que cresceu paralelamente à construção de Brasília.
Um bairro tradicional no centro de Brasília
A importância histórica do Cruzeiro está relacionada tanto à proximidade com marcos da fundação de Brasília quanto à experiência cotidiana de seus moradores. A região foi planejada no período de implantação da capital, recebeu trabalhadores essenciais para a consolidação da cidade e desenvolveu uma identidade própria ao longo das décadas.
O Cruzeiro Velho, com suas casas, e o Cruzeiro Novo, com seus blocos residenciais, representam momentos diferentes da expansão urbana. Juntos, formam uma área que preserva parte da memória dos primeiros anos de Brasília e continua integrada à dinâmica do Plano Piloto e de outras regiões centrais.
Por isso, falar sobre a história do Cruzeiro em Brasília é também falar sobre a formação social da capital. A região nasceu como espaço de moradia para os pioneiros, adotou um nome escolhido pela comunidade e se consolidou como território de convivência, cultura e memória no Distrito Federal. (agenciabrasilia.df.gov.br)